quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Evangelização em ‘zonas vermelhas’ e trabalhos sociais fazem parte do cotidiano do Polo Coroadinho

Por Nelson Melo do Jornal Pequeno

Violência, tiroteios e mortes. Assim o Polo Coroadinho é divulgado por quem mora em outros locais e pela imprensa. Mas a verdade é que a região é marcada por um forte trabalho voluntário e por uma interessante missão religiosa. Segundo a 2ª Unidade de Segurança Comunitária (USC) da localidade, católicos e evangélicos superam suas limitações e evangelizam em áreas com intensa presença de “bocas de fumo”, sendo que os bandidos não os agridem ou impedem o ato. 

Entrevistado pela reportagem do Jornal Pequeno, o major Raimundo Mulundu Martins Serra Júnior, de 43 anos, comandante da USC do Coroadinho, lamentou o fato de que a imagem da região seja divulgada somente por seu aspecto negativo, como se o Polo Coroadinho fosse um lugar totalmente inseguro e tenso. De acordo com o oficial, esse “mito” é amplamente veiculado por várias razões, dentre as quais o fato de que os cálculos feitos sobre os assassinatos não levem em consideração a quantidade de habitantes. 


Como explicou o major, somente no bairro do Coroadinho, ocorrem 12 homicídios a cada 100 mil habitantes, mas, quando o cálculo é feito com relação ao Polo, que contém 18 bairros e 63.586 habitantes, esse número alcança 20 assassinatos por 100 mil habitantes. Outros bairros, utilizando o mesmo padrão, superam essas estatísticas, como, por exemplo, a Cidade Olímpica, a Vila Maranhão (eixo Itaqui-Bacanga), Pedrinhas e Forquilha. Por este motivo, esse grau de periculosidade tão citado acerca do Coroadinho é falso, embora a região contenha seus problemas em vários sentidos. 


O major relembrou que o Coroadinho passou 94 dias sem um registro sequer de assassinato neste ano, do período carnavalesco até maio, mas isso não teve repercussão porque, segundo ele, o lado negativo do local já está impregnado na mentalidade coletiva e isso, de certa forma, ganha um aspecto de verdade para as pessoas. Natural de São João Batista/MA e com 23 anos na corporação, Serra mostrou que em 2017 ocorreram 37 homicídios na região, sendo que, até agora, já aconteceram 14 neste ano. Ou seja, conforme se expressou, tudo indica que 2018 vai fechar com uma queda significativa com relação ao mesmo período do ano passado. 

Trabalho de evangelização: o comandante da USC, que foi inaugurada em 30 de setembro de 2014, contou que, durante o dia ou à noite, os católicos e evangélicos seguem até as denominadas “zonas vermelhas” e outras partes do Polo Coroadinho para levar a “Palavra de Deus” aos delinquentes e moradores. O grupo também entrega panfletos religiosos e, em muitas ocasiões, até distribuem sopas e mingau, sempre movidos pela fé. 

Conforme Serra, desde que a USC foi entregue à comunidade, não há registros de que essas pessoas tenham sofrido ameaças, agredidas ou expulsas pelos faccionados. Conversando com os delinquentes, o oficial descobriu que os religiosos não são impedidos pelos bandidos porque os seus pais os aconselham para “não mexer com o pessoal de Deus”. Aliado a este fato, há igrejas ou templos em todas as “zonas vermelhas” do Polo Coroadinho, sendo que nenhum desses prédios é invadido ou depredado por criminosos. 

Escola intacta: outro fato mencionado pelo major foi a integridade do Centro de Ensino Dorilene Silva Castro, que fica na descida do famoso Morro do Zé Bombom. Segundo o comandante, esta escola não possui nenhuma pichação ou qualquer outro tipo de destruição do patrimônio. Isto porque as professoras persuadiram os alunos de que o ambiente é da comunidade e deve ser preservado. 
A mensagem divulgada pelo corpo docente é tão forte que os faccionados que jogam futebol na quadra da escola aos sábados não destroem o local. 

Moradores decentes e disciplinados: o major também frisou que a maioria dos habitantes do Polo Coroadinho são trabalhadores, estudantes e pessoas que não aceitam o crime como um “meio de vida”. Ainda de madrugada, vários moradores saem de suas casas para o serviço, em busca do pão de cada dia. Na região, há, inclusive, um campeão em MotoCross, que possui mais de 150 troféus de competições que disputou. 

Também há muitas pessoas que conseguem ingressar na universidade por meio do estudo e esforço. Ele citou o aspecto cultural e recreativo que existe no Polo, com ênfase na Banda Juvenil do Coroadinho, que possui equipamentos da USC e da comunidade, com apresentações não apenas na região, como, ainda, em outros bairros da região metropolitana. 

Guerra entre facções e o combate ao crime organizado: durante a entrevista, o comandante destacou que o Polo Coroadinho – que começa na entrada da Barragem do Bacanga, no cruzamento com a Avenida Vitorino Freire, e termina na Avenida dos Franceses, já perto do São Cristóvão – passa, atualmente, por uma guerra urbana entre Bonde dos 40 e Comando Vermelho (CV), que possuem seus territórios bem delimitados. O Alto do São Sebastião e a Vila Conceição, por exemplo, são “quebradas” do CV, enquanto o Morro do Zé Bombom e outros trechos são preenchidos por integrantes do Bonde. 

Embora o senso comum espalhe que o Zé Bombom seja o lugar mais “remoso” do Polo, na verdade, segundo o major, esse posto pertence ao Alto do São Sebastião e Vila Conceição. Ele frisou que o principal problema enfrentado nas comunidades, em termos de segurança pública, é o tráfico de drogas, que é oferecido aos moradores desde cedo, ou seja, na infância. As 12 câmeras da USC já filmaram garotos de aproximadamente 10 anos vendendo drogas sob a companhia de irmãs também crianças, a quem são encarregadas a tarefa de anotar no caderno quem pagou e quem está devendo. 

Para reverter esta triste realidade, a USC está realizando palestras nas escolas, para atuar na prevenção, a fim de mostrar aos jovens que a “vida loka” significa vida curta e que uma vida decente é gloriosa. Serra disse que alguns resultados já são perceptíveis. Muitas crianças, ao passarem pelo quartel da unidade, pedem até a bênção aos policiais militares, em sinal de respeito. Algumas até dão os braços aos PMs e fazem orações em círculo dentro do quartel antes de irem à escola. 

Mas ele salientou que ainda é preciso muito avanço, tendo em vista que existe uma ideia, oferecida nos lares, de que a polícia é opressora e violenta. Isso ganha teor de verdade quando nas famílias já há integrantes reincidentes no crime. Ou quando os pais colocam medo nas crianças ao anunciarem que irão chamar a polícia a partir do momento em que os meninos aprontam em casa. 

Sobre o major: Serra é da turma de aspirante de 1997, sendo que, de 1998 a 2010, trabalhou em Pindaré-Mirim/MA. Depois, assumiu outros cargos na corporação, até ser o comandante da 2ª USC, fato ocorrido em maio de 2015. O oficial é especialista em Segurança Pública pela Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e possui uma graduação em Educação Física. Também é detentor de vários cursos, como o de Policiamento Comunitário, o que o permitiu ser palestrante nos estabelecimentos de ensino do Polo Coroadinho.

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